Foto: Karine da Fonseca |
Visitamos
duas regiões irrigadas do Brasil, buscando trazer informações específicas sobre
a capacidade real da produção agrícola que cresceu, e muito, nas últimas três
décadas
Na região de São Desidério na Bahia, encontra-se as
maiores produções agrícolas do Brasil. Distante 878 km de Salvador, até a
década de 1980, o município sobreviveu da agricultura de subsistência, com
pequenas produções e comércio quase inexistente. A partir de 1985 a região toma
impulso com a chegada de migrantes do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo,
atraídos pelos baixos preços das terras e a possibilidade de plantio com o
manejo do cerrado e a riqueza hídrica da região.
A realidade da cidade hoje é completamente oposta.
Em 30 anos a agricultura de São Desidério se destaca atingindo o ranking de
maior PIB do estado e chegando em 2012 como o município brasileiro com maior
valor de produção agrícola, onde atingiu R$ 2,33 bilhões, disputando o pódio
com Sorriso - MT.
A irrigação é a maior garantia dessa megaprodução.
Vizinha de São Desidério, fica Luiz Eduardo Magalhães que há 15 anos era apenas
uma vila e hoje tem mais de 80 mil habitantes. Toda essa riqueza no oeste da
Bahia é gerada basicamente da agricultura irrigada, transformando a condição da
região que conta com índices pluviométricos entre 800 a 1200 mm.
Família
Busato
Em 1988, Júlio César Busato e o pai, Hélio Busato
saem do Rio Grande do Sul a procura de novas terras para agricultura nos
estados da Bahia e do Mato Grosso. Paralelamente à expansão da agricultura no
cerrado baiano, novas fronteiras são abertas. Logo que conhece a região, o
patriarca da Família Busato decide ficar, mesmo sem conhecer a realidade das
terras mato-grossenses. Viu ali a chance que procurava.
Com um sol firme durante todo e ano e o fácil
manejo hídrico, a questão da irrigação já era muito discutida. Em busca de
melhores preços do feijão, viram a oportunidade de produzir fora de época para
atingir melhores preços. Logo os outros três filhos do Sr. Hélio vieram para
São Desidério, seguindo a tradição de gerações de agricultores.
A princípio começam irrigando 50 hectares com um
pivô em sociedade com um vizinho. Em 1992 a família adquire mais dois
equipamentos, investindo assim anualmente na aquisição de pivôs. Para o Sr.
Hélio a irrigação é algo importante, onde vê essa como uma ferramenta fundamental
para dar segurança e produtividade. Mesmo com o Estado da Bahia não tendo
tecnologia na época, e passar por complicações ora por conta dos veranicos, ora
por conta das interrupções do regime climático, com a irrigação não teria
dificuldade em colher. Teria sim um ano tranquilo com boa colheita e safra
descasada com pico de produção. “Essa é uma forma de não ter dificuldade com a
lavoura e dar sustentabilidade ao negócio! Esse foi o grande lace de irrigar
nesses 25 anos”, garante a nova geração de irrigantes da família, o Engenheiro
Agrônomo César Busato, filho de Júlio César e neto do Sr. Hélio e quem recebeu
a equipe Pivot Point Brasil na Fazenda Busato I.
No começo os Busato irrigaram basicamente feijão,
soja e milho. Na propriedade já produziram mais de 12 culturas diferentes,
desde hortaliças como cebola e tomate, até amendoim, milho pipoca, milho
convencional, testes com alfafa, cana de açúcar e fumo. A produção de 2 a 2,5
safras/ano, depende do conjunto. Já foram feitas até três safras/ano, mas viram
2,5 ser um ótimo número. “Não atemos a uma cultura. Sempre buscamos coisas
novas para tentar integrar e agregar o sistema de irrigação”.
Em 2003 a Fazenda Busato foi pioneira na adoção do
sistema de manejo de irrigação da Irriger. “Uma das propriedades, a Fazenda
Busato II fica próximo ao Vale do São Francisco. Com um solo muito instável, sob
um mesmo pivô temos variações de mais de 30 pontos de argila, em um ponto 3% e
em outro 33%.
Para conseguir irrigar um solo tão complexo,
exigiu-se conhecimento e tecnologia. “Através do Professor Everardo – grande
referência em irrigação no Brasil - apostamos que o programa auxiliaria muito
no trabalho, além de poder saber o que foi gasto e com sustentabilidade. Ao longo do tempo conseguimos ganhar confiança. A
Irriger além de dar um parâmetro, nos dá segurança de que estamos fazendo um
bom trabalho, diminuindo ainda a incidência de doenças e aumentando o volume do
produto final”.
A produção atual da Família Busato é trabalhando
com soja precoce, seguindo de algodão para escapar do período mais frio e
finalizando com milheto para manejo e conservação de solo. O grupo familiar,
como preferem chamar, colhe média de 65 sacas de soja, 180 de milho e 300
arrobas de algodão por hectare. Cada membro do grupo cuida de uma área:
financeiro, agrícola, técnica, administrativa, mecanização, logística e infraestrutura.
Além disso Júlio César Busato é o atual presidente da Associação Baiana de
Irrigantes e Agricultores.
Ao todo, nas nove propriedades, ou nove módulos
gerenciais como titulam, 41 mil hectares de área, 46 pivôs e 4.500 ha são
irrigados. “A pessoa tem que estar preparada para um time muito mais apertado para um nível de organização um pouco
maior e ver a fazenda como um sistema diferente do sistema sequeiro, onde os
ciclos acabam. Na irrigação o ciclo nunca acaba. Sempre há safra. Isso gera
renda, melhor fluxo em caixa e máquina muito mais eficientes com tecnologia de
ponta”, completa César Busato.
Grupo Decisão
Nessa propriedade fomos recebidos pela nova geração
da família tradicional de agricultores, Ariel Zancanaro Zanella. O grupo é
liderado pelos Zancarano, onde o avô Nelsir e os quatro filhos cuidam de toda a
rotina do Grupo Decisão. A chegada da família na Bahia tem início no estado
natal Rio Grande do Sul, seguindo para a cidade de Cascavel, PR, onde buscavam
novas oportunidades. Depois de décadas, a família vai para
Unaí, MG onde o pai Celestino Zanella e o tio João ficam por 20 anos, até
decidirem ir para a Bahia, mais precisamente em São Desidério.
Na cidade mineira começam a irrigar em 1990. “Pivô
significa diferencial”. A vantagem de se utilizar o sistema já era conhecida
pelos tios, que continuaram irrigando em Unaí, tendo a opção de comprar área
para ser irrigada na Bahia.
Com duas unidades distintas, o Grupo tem uma área
em sequeiro, mas para aproveitamento de terra. Em Unaí produzem café, feijão,
trigo, soja e milho. Já a unidade de São Desidério cultiva soja, feijão, milho
e algodão, aproveitando da altitude e temperatura na Bahia, garantindo assim a
produção. “A irrigação nos permite toda
essa gama de culturas diferentes numa mesma área”.
Utilizando alguns pivôs para 02 safras/ano e outros
com 03 safras/ano onde fazem milho, soja e feijão, sempre levantando a
importância do manejo. Com planejamento adequado, trabalham em ciclos onde em
um mesmo pivô, a mesma cultura não volta antes de passar por todas as outras. “Cada
cultura tem sua peculiaridade e vantagem. Às vezes duas culturas proporcionam
mais do que as 03 que fazemos em outro pivô. Depende do ano, da safra e da
época”.
E é o planejamento a palavra de ordem do Grupo
Decisão. Tudo gira em torno de reuniões com os líderes e responsáveis pelas
propriedades. Principalmente com o planejamento de rotação de culturas: “Visualizamos
a parte financeira? Sim! Mas o nosso foco é agronômico. Nós não plantamos uma
cultura em determinado pivô simplesmente porque naquele ano ela vai ser
financeiramente mais lucrativa. Tem
toda uma rotação de cultura com a parte agronômica atrás. Ou seja, nós vamos
continuar plantando feijão, soja algodão e milho. As áreas mudam 200, 300
hectares por conta da própria rotação de cultura. Sentam as pessoas que decidem
pela fazenda e planejam a base”.
Experts no manejo de 03 safras/ano plantam 11
meses/ano e colhem 11 meses/ano – não necessariamente em sequência, havendo
necessariamente o tempo de um mês. “A parte operacional é muito mais ativa.
Enquanto que no sequeiro existem 06, 07 meses onde há funcionários contratados
e depois essa mão-de-obra não é mais necessária, irrigando trabalhamos com esse
quadro de funcionários o ano todo. A parte operacional é muito mais rápida e o
planejamento tem que ser muito bem feito: se atrasa um pouquinho numa cultura,
perde consequentemente na outra. Isso gera mais dinamismo e renda”.
Outra importante opção do Grupo é o plantio de milheto
e crotalária como lavouras de cobertura. O Decisão não se limita apenas ao
milho para a palhagem de solo e acredita que essa é a solução para as áreas da Bahia.
O objetivo da rotação, além de limitar pragas, é a matéria orgânica. Quanto
mais matéria orgânica, mais micro-organismos que vão competir com as
nematoides. “Esse é mais um plus da
irrigação”.
Pioneiros também na implantação do sistema Irriger
desde 2006, tiveram dúvidas quando o programa foi implantado. Após o relatório
de safra, perceberam que podiam produzir mais com menos 28% de água só no
primeiro ano. “A planta tem uma necessidade hídrica para cada momento. A
Irriger mostra e prova que é eficiente. Se não tiver acompanhamento, pode ser
tomado decisão errada. E o custo do serviço? “se paga fácil, além de menor
aplicação de fungicida e melhor fitossanitário: outro plus da irrigação”.
A decisão pelo equipamento Valley veio pela
confiança adquirida e pelo suporte adequado. Ao todo o Grupo conta com três
propriedades na Bahia e uma em Minas Gerais, totalizando 3.299 hectares
irrigados com 29 pivôs. Para o futuro, a intenção é irrigar mais sete mil
hectares. “Se a irrigação não fosse vantagem não teríamos conseguido chegar até
aqui. Sem a irrigação a gente teria conseguido trabalhar por um ou dois anos.
Nos outros anos a perda seria de 60 a 70%, senão total. A região de São
Desidério é de 800 a 1200 mm de chuva, ou seja, não teríamos conseguido”.
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Imagem: wikipedia.com |
Localizado na região noroeste de Minas Gerias,
Paracatu fica a 500km da capital Belo Horizonte. Conhecida por ser a maior
produtora de grãos do estado, a mesorregião é a maior produtora de feijão do
país. O clima quente proporciona veranicos severos com possibilidade de sucesso
na colheita das lavouras com a irrigação.
Há 30 anos, a região se beneficiava apenas de
pecuária de extensão e da prática do garimpo de exploração. Com a chegada da
irrigação, o aspecto da região mudou, principalmente nos últimos 15 anos. Hoje
a cidade tem a economia voltada para a agricultura, coisa que não seria
imaginável em temperaturas altas e a grande presença de veranicos.
No maior município irrigado da América Latina, algo
em torno de 400 mil hectares conforme a Agência de Desenvolvimento Sustentável
do Noroeste de Minas (Adesnor), visitamos três propriedades, cada uma com sua
peculiaridade, mas todas com uma característica: de duas a três safras/ano bem
definidas.
Família
Veloso
Há 20 anos Danilo, Dalmir e Décio Veloso chegaram a
Paracatu deixando a cidade natal de Carmo do Paranaíba, também em Minas Gerais,
onde eram pecuaristas de leite, em busca de crescimento e inovação. Na época
adquiriram área para plantio de milho para silagem em sequeiro.
Não demorou muito para entrar na atividade agrícola
como irrigante, seguindo os conselhos de um amigo, e entrar de fato no ramo da
agricultura, podendo assim aproveitar e adquirir grandes áreas em oferta na
região que sofria crise econômica. Era o momento de entrar no negócio.
Começaram com dois pivôs e foram abrindo área. “Já entramos no seguimento com a
intenção de produzir com uma meta estipulada que dependeria exclusivamente de
irrigação, tecnologia e escolha de semente”, diz Danilo Veloso.
Hoje são nove equipamentos, onde dos 1.550 hectares
de área, 530 ha são irrigados. A produção em sequeiro ainda é realidade em uma
das três propriedades, por conta da dificuldade em utilizar recursos hídricos.
Irrigando conseguem plantar soja em outubro, colher em fevereiro, entrar com o
milho em março, colher em junho e logo plantar feijão que é colhido em
setembro. “Sempre deu certo”, garante. Outra produção é milho semente, o que na
região, é feito com a parceria com sementeiras que aproveitam o clima agregado
à irrigação por pivô central.
Com o projeto de irrigar mais 270 hectares em
breve, Danilo Veloso diz convicto: “É melhor ser irrigante do que não ser. A
frustação com o sequeiro é muito grande. Quando a planta precisa de água, não
tem chuva e não se pode fazer nada. Com a irrigação a gente decide a hora
certa. É um prazer plantar com irrigação. Produzir alimentos assim é fácil.
Hoje é inviável plantar sem irrigação. Tenho área de sequeiro e não quero mais
plantar. Se não for irrigado, vou dar murro em ponta de faca”.
Fazenda Santo
Aurélio
Galba Vieira Cordeiro Jr. é daqueles protagonistas
de uma história de sucesso. Filho de uma tradicional família de pecuaristas de
Paracatu, recém-formado em Administração de Empresas, chega até o pai e faz uma
proposta não esperada: utilizar as terras para a agricultura. O pai logo viu
com estranheza o pedido do filho, já que a região castigava as lavouras por
conta do clima quente e a falta de chuvas.
Apesar de não ter experiência com agricultura,
remodelou a fazenda e mesmo não tendo o apoio total do pai, seguiu adiante.
“Com a necessidade, meu pai vendeu parte da fazenda. Vi que tinha que
tecnificar o que tinha sobrado”. Junto à irmã, decidiu em 2004, não só plantar,
mas irrigar. Via que essa era a alternativa certa para a adequação, além de ser
um nicho de mercado.
Na primeira aposta, adquiriu dois pivôs que
irrigavam 130 hectares. Com o lucro da safra, comprou mais dois equipamentos. E
assim foi crescendo dentro do segmento: “O que sobrava investia”, lembra. Hoje
são 40 pivôs e 2.500 hectares irrigados em uma área de 4 mil ha. “Não tem como
mensurar o que aconteceu nos últimos 11 anos. A irrigação trouxe uma
prosperidade muito grande”.
Com 35 funcionários direto, a produção é
basicamente de soja, milho e feijão. A média é de 2,6 safras/ano, que só não é
maior por um déficit na região: a falta de fluxo de colheita, onde não há onde
guardar e sacar. Aproveitando da oportunidade, utiliza campo de semente para o
inverno. A garantia que as sementeiras dão, possibilitam um giro maior e certo.
“Usei na fazenda, que nada mais é que uma empresa a céu aberto, o que aprendi
na faculdade”.
Fava Sementes
A Fava Sementes tem apenas três anos de mercado.
Mas a experiência com agricultura do proprietário Luiz Fava Jr é muito maior, sendo
28 anos de irrigação. Com propriedades em Minas Gerais onde a produção é feita
com milho sementes, Goiás e Bahia cultivam soja, feijão, milho, algodão e café.
Ao todo, nos três estados, são 12 mil hectares de
área, onde 2.853 são irrigados por 15 equipamentos. Sete outros estão em
andamento. Um dos pilares da propriedade é o café irrigado na Bahia: projeto de
irrigação grande com maiores recursos disponíveis. A produção nas propriedades
gira os 12 meses do ano, onde é possível fazer 2,5 safras/ano.
Cliente Irriger, Luiz Fava Neto, nova geração da
Fava Sementes, diz que o sistema é o equilíbrio da irrigação. “A agricultura com irrigação é mais eficiente
e não está refém das condições climáticas”. A ideia é irrigar mais 5 mil
hectares em Minas e Goiás e mais 3 mil na Bahia
Por conta da baixa lâmina d’água na região de Minas
Gerais onde estão instalados, a irrigação é a salvação e os pivôs são ligados
nos veranicos. Mesmo assim, a fazenda gira o ano todo, empregando 130
funcionários, e diminuindo o custo operacional de pessoas. “A fazenda encaixou
como uma luva na irrigação. Não tem funcionário ocioso. Antes havia uma
rotatividade muito grande. Hoje podemos formar equipe o que agrega qualidade no
manejo da fazenda”.
*Matéria de capa publicada em Pivot Point Brasil - agosto de 2015
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