quinta-feira, 30 de junho de 2016

Roberto Rodrigues – uma aula de agronegócio

Foto: assessoria de comunicação
Nascido na pequena Cordeirópolis no estado de São Paulo, Roberto Rodrigues está ligado ao agronegócio desde muito jovem. Engenheiro agrônomo, produtor rural, professor, e economista rural, ex-Ministro da Agricultura durante o primeiro mandato do Governo Lula, e um dos maiores especialistas do setor no Brasil, tem dentre suas qualificações, o conhecimento da real importância e da potencialidade da agricultura e da pecuária brasileira.

Durante a entrevista cedida à Pivot Point Brasil, o ex-ministro mostrou além de simpatia e cordialidade, que é um homem à frente de seu tempo e certo das responsabilidades e desafios de todos os setores ligados ao agronegócio. Renomado, seu currículo engloba ainda: coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, Embaixador da FAO para o Cooperativismo, conselheiro de várias instituições de classe e acadêmicas ligadas ao agronegócio, tendo sido, ainda, presidente de organizações e associações que impulsionam e apoiam o setor no Brasil. É ícone para o setor agropecuário, possuindo nove livros publicados sobre agricultura, cooperativismo e agronegócio. Com 50 anos de vida dedicados ao agronegócio, Roberto Rodrigues nos presenteia com uma entrevista em que faz um panorama da atual situação do setor e dos desafios que devem ser enfrentados nos próximos anos.

Pivot Point Brasil - Dentre tantos desafios e conquistas durante sua jornada dentro do agronegócio brasileiro, como o senhor traduz e classifica o setor?
Roberto Rodrigues - O agronegócio brasileiro responde por um quarto do PIB nacional, gera 30% dos empregos e é responsável pelo saldo comercial positivo do país, visto que os demais setores são deficitários. E apesar da grande crise de 2008, nossas exportações continuam crescendo. Em 2004, exportamos 35 bilhões de dólares e no ano passado, dez anos depois, o valor foi de 96 bilhões de dólares, graças ao desenvolvimento de uma tecnologia tropical em nossos organismos de pesquisa que foi adotada por nossos produtores rurais, o que nos deu competitividade frente aos concorrentes de outros países. Esse setor é, portanto, um dos mais importantes, senão o mais importante, em todo o conjunto socioeconômico brasileiro.

PP - As dificuldades do setor são inúmeras. Muito se fala em uma queda na economia brasileira. Como o produtor brasileiro deve se preparar para uma possível baixa na economia rural?
RR - Estamos terminando uma safra de verão beneficiada pelo câmbio: embora os preços das commodities tenham caído em dólares por causa da grande oferta global, a valorização do dólar frente ao real compensou essa queda, de modo que a renda rural foi sustentada, e em boa parte do país também ajudada por boas condições climáticas. Mas os preços continuam caindo lá fora, enquanto os custos da próxima safra subirão aqui por causa do mesmo câmbio que ajudou a renda desse ano. E não sabemos qual será o dólar da colheita em 2016. O necessário ajuste fiscal imposto pelo governo vai reduzir o volume de crédito rural e aumentar os juros de modo que a perspectiva é de aperto nas margens do ano que vem. O produtor deve colocar as barbas de molho, cortando custos e reduzindo investimentos. Não dá para aumentar endividamento neste cenário adverso.

PP - Vendo essa realidade, onde o agronegócio brasileiro será afetado pela baixa econômica, como o setor irá compensar de alguma maneira o baixo crescimento de alguns setores?
RR - O PIB do agronegócio vai crescer mesmo sob essas condições negativas. Este ano deve crescer em torno de 1,5%. Nos últimos 25 anos, a área plantada com grãos no Brasil cresceu 50% enquanto a produção cresceu 234%, quase cinco vezes mais! Essa tecnologia mostra uma grande sustentabilidade. Se tivéssemos hoje a mesma produtividade por hectare de 25 anos atrás, precisaríamos de mais 69 milhões de hectares para produzir a safra recorde que estamos colhendo este ano nos 57 milhões de hectares que cultivamos. Isso quer dizer que preservamos 69 milhões de hectares. Não é uma promessa, está feito. Como a demanda mundial por alimentos segue aumentando, continuaremos ajudando a segurança alimentar de outros países ao mesmo tempo em que sustentamos a economia brasileira tão machucada por problemas dos demais setores.

PP - Para o senhor, existem estratégias que possam mudar o cenário do agronegócio atual? Existem caminhos que possam dirigir com excelência o rumo do setor?
RR - Sem dúvida falta uma estratégia articulada para o agronegócio crescer muito mais, gerando empregos, renda e riqueza para o nosso país. E alguns pontos são fundamentais para essa estratégia, como logística e infraestrutura, fato que todo mundo conhece: já temos um bom projeto para isso, falta tirar do papel. Falta uma política de renda, que modernize o crédito rural, crie um seguro agrícola digno desse nome, reforme os preços mínimos e organize modelos de comercialização privados, como leilões de opção, fortalecendo as Bolsas de Futuros. Falta uma política comercial mais agressiva, com acordos bilaterais que aumentem nossos mercados e reduzam a amarração ao Mercosul, que não nos permite avançar em acordos fundamentais, como o com a União Europeia. Precisamos estimular ainda mais a tecnologia, fortalecendo os organismos estaduais e federais de pesquisa e extensão rural. Precisamos de negociações que agreguem valor as exportações: em vez de exportar soja e milho em grãos, embuti-los em carne de frango e de suíno para gerar emprego aqui dentro e não lá fora. A agroenergia, setor que pode mudar a geopolítica mundial e que foi grande responsável pela redução de nossa dependência de petróleo importado, deve ser reativada. O FAO e a OCDE pedem ao Brasil para aumentar em 40% a produção de alimentos, para que o mundo possa crescer 20% nos próximos dez anos! Temos que crescer o dobro do que o mundo crescerá e só assim haverá segurança alimentar no mundo. E só conseguiremos fazer isso se tivermos a estratégia referida. Que passa também pela modernização de várias legislações que estão obsoletas.

PP - Quando o senhor acredita que o setor sucroalcooleiro estará recuperado?
RR - Nos últimos anos o governo usou o controle do preço da gasolina para segurar a inflação: comprava lá fora por um preço e vendia aqui dentro mais barato. Com isso, destruiu o valor da Petrobras e acabou com a competitividade do etanol, criando enormes dificuldades para o setor. No começo deste ano, puxado pelo ajuste fiscal, o governo federal voltou a cobrar a CIDE sobre a gasolina, devolvendo competitividade ao etanol. Também permitiu o aumento da mistura, de modo que as coisas tendem a melhorar. Por outro lado, o mercado mundial de açúcar no qual o Brasil é o maior ator, pode piorar porque a Tailândia e a Índia estão subsidiando pesadamente seus produtores de cana. Isso vai aumentar a produção de açúcar nesses dois países, pressionando os preços para baixo. Portanto, precisamos de uma clara estratégia para o setor em nosso país: temos que decidir qual é a matriz energética que queremos, qual o espaço da agroenergia nessa matriz e o que precisa ser feito para garantir tal espaço.

PP - A crise hídrica chegou e levou a população brasileira a estar atenta a falta d’água. Muitos estudos tratam o assunto como participante do histórico do planeta, onde há épocas de seca e épocas de águas. Para o senhor, o assunto é simples assim?
RR - Não. O assunto é muito mais complexo. Contempla os ciclos naturais do planeta, mas também tem a ver com o comportamento humano. A população da Terra está crescendo, assim como sua renda, de modo que o consumo de tudo aumenta, e é preciso compatibilizar o conjunto das demandas com a preservação dos recursos naturais. A humanidade tem que sobreviver e evoluir. Não podemos voltar para as cavernas, mas também não podemos destruir o meio ambiente. E é possível fazer as duas coisas, desde que se usem tecnologias modernas e preservacionistas. E aqui há um tema que tem sido tratado com certo primarismo, o de que a agricultura consome 70% da água consumida no mundo. Isso não é verdade: a agricultura não consome, ela usa a água e a devolve filtrada para a natureza. Um pé de milho ainda verde tem 60% de água, mas quando encerra seu ciclo, vira pó. Ora, para onde foi a água do milho verde? Voltou para a natureza, como vapor ou para o lençol freático, renovada e melhorada. A única água exportada pelo milho é a que fica nos grãos do cereal, que servem para o consumo humano, direta ou indiretamente. Já a água usada em esgotos urbanos tem muito mais perdas do que as usadas pelas plantas e animais.

PP - Muitas vezes a população urbana vê o produtor rural como vilão. Nessa crise hídrica isso ficou ainda mais evidente. Como seria possível mudar essa percepção da população?
RR - Esta é uma questão central. Numa democracia, e felizmente somos uma, as políticas públicas são definidas muitas vezes em função do que pensa a sociedade. Se a maioria das pessoas for a favor de reduzir a maioridade penal, por exemplo, isso acontecerá. A população brasileira é hoje majoritariamente urbana, e em geral mal informada sobre o papel da agropecuária e do agronegócio no desenvolvimento e sustentação do país. Recente pesquisa realizada na França mostrou que 82% dos cidadãos urbanos franceses consideram seus agricultores como heróis. E lá as políticas públicas estimulam a atividade rural. Aqui, o desconhecimento da realidade leva nossos urbanos a desprezar a atividade rural e o produtor rural, achando que eles destroem o meio ambiente, que usam "venenos" nas plantas, que exploram o trabalho escravo e outras lendas. No mundo desenvolvido, os cidadãos urbanos tem o maior respeito pelos agricultores porque sabem que não haverá comida, energia ou fibras (algodão) sem eles. Sabem que há uma relação visceral entre o urbano e o rural. Ainda não chegamos nesse ponto de conhecimento, mas isso felizmente está mudando e hoje boa parte da população urbana já respeita e admira o homem do campo. Mas isso precisa ser mais bem comunicado: repetir a verdade é o melhor caminho.

PP - Como o senhor vê a evolução da irrigação no Brasil?
RR - Acho que a irrigação vem evoluindo no país, mas há ainda um grande espaço para avançar. Precisamos de políticas regulatórias para esse setor que é a fronteira das tecnologias agropecuárias, contemplando linhas de crédito especiais, a modernização dos equipamentos, o uso adequado da água, eventualmente cobrando por ela, entre outros fatores. A irrigação é a cereja do bolo das modernas tecnologias, exige atenção especial de governos em todos os níveis: federal, estaduais e municipais.

PP - Hoje cerca de 5 milhões de hectares são irrigados e  fala-se em um potencial de 29 milhões de hectares irrigados. Como ex-ministro de agricultura, quais os caminhos e desafios pra chegarmos lá?
RR - Reitero que precisamos definir estratégias para esse setor tão importante quanto delicado. O uso da água, bem como o da terra, constitui-se em crescente preocupação da humanidade. Linhas especiais de crédito para irrigação e armazenagem de água precisam ser ampliadas. A tecnologia deve evoluir na direção da redução do desperdício da água, com equipamentos cada vez mais modernos, e tudo isso exige muita educação por parte de usuários e formuladores de políticas públicas. Trata-se de um dos temas mais sérios da moderna agropecuária, especialmente em países tropicais como o Brasil que tem gigantescas áreas agricultáveis atualmente não utilizadas porque não chove o suficiente. Acredito que a irrigação, junto com a nanotecnologia, a biotecnologia e TI serão as grandes alavancas na direção da ampliação da competitividade do agro brasileiro.

PP - Para o senhor, não está na hora de o Brasil ter o seu “farm bill” como acontece nos EUA?
RR - A estratégia de que tratamos em outra parte dessa entrevista seria uma espécie de "farm bill" nacional, desde que contemplasse mais especificamente a questão da renda do homem do campo. A última "farm bill" americana, por exemplo, sob as crescentes pressões da OMC e dos países concorrentes dos Estados Unidos, mudou o foco dos subsídios diretos para indiretos, através do fortalecimento do seguro rural que contempla não apenas problemas determinados por acidentes climáticos, mas também pela volatilidade dos preços agrícolas. A renda rural fica assim garantida, e com isso a atividade também se estabiliza, com todos os riscos mitigados. Portanto, uma política agrícola que cuide dessa temática da renda no campo seria parte essencial da estratégia que defendemos para o crescimento equilibrado do nosso agro.

PP - A profissionalização do produtor rural brasileiro é tecla sempre batida. O que o senhor compreende que deve ser feito? Quais os caminhos a serem seguidos?
RR - Profissionalização no campo é absolutamente fundamental. Não se constrói uma empresa, um grupamento social ou uma nação sem gente treinada, motivada, preparada e apta para exercer com profissionalismo sua atividade, qualquer que seja ela. Isso não é diferente na agropecuária, onde a profissionalização precisa atender aos diversos níveis de atividade. Hoje uma colhedeira de cana com todos os aparatos que a cercam custa quase um milhão de reais. Um operador de tal máquina vai lidar com GPS, computador de bordo, informações via satélite, o que exige grande investimento em treinamento. Tampouco se faz agricultura de precisão ou integração lavoura / pecuária sem preparo técnico. Rastreabilidade e certificação, fenômenos cuja exigência crescerá no mundo todo, não se farão sem gente capacitada, seja na agricultura, seja na pecuária, seja na agroindústria: os consumidores modernos querem saber como aquele produto foi feito, quem esteve à frente dos processos. Portanto, os trabalhadores rurais devem receber muita informação e treinamento. No nível médio, sobretudo nos controles de custo, na gestão e na gerência das empresas também são necessários funcionários especializados e capazes, os técnicos agrícolas e em gestão. E por fim, os profissionais de nível superior (engenheiros agrônomos, médicos veterinários, zootecnistas, engenheiros florestais, etc) precisam saber mais do que hoje aprendem. Precisam entender de mercado, de políticas públicas, de avanços científicos, de gestão (aí entrando a gestão ambiental, a trabalhista, a fiscal e tributária, a financeira, o controle de custos, etc). Estes três níveis de trabalhadores deveriam estar preparados para discutir os fatores essenciais para a produção sustentável e competitiva.

PP - Durante suas aulas, qual a maior dificuldade aparente nos seus alunos? O que temem os futuros profissionais do agronegócio brasileiro?
RR - Acho que a maior problema dos alunos de ciências agrárias é a expectativa de conseguir um bom emprego, condizente com seus sonhos e ambições. A competição é acirrada e não dá espaço para acomodação ou despreparo. Insisto muito com os futuros profissionais desse setor que devem se comunicar bem, aptos a trabalhar em equipe, com espírito de liderança, conhecendo informática e com boa prática de inglês e, se possível, de espanhol. Devem estar informados sobre as instituições que regem a atividade do setor escolhido e precisam conhecer a história do país, sua geografia, suas características edafoclimáticas, étnicas, culturais... O profissional de ciências agrárias não deve ser apenas um técnico que conheça bem seu setor, embora isso seja absolutamente essencial: é preciso ser um comandante, pela única e boa razão de que o agronegócio comandará ainda por um bom tempo os horizontes da economia nacional.

*Entrevista publicada em Pivot Point Brasil - abril/2015

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Carlos e Matheus Nogueira: a irrigação de pai para filho

A sucessão familiar dentro da propriedade rural é o sonho de todo produtor. Ver que seu trabalho é acompanhado de perto pelos filhos já deixa qualquer pai ou mãe já muito satisfeitos. Imagina então saber que seguirão seus caminhos... Mas, infelizmente, essa não é a realidade comum das propriedades rurais no Brasil. As cidades com suas luzes e opções levam muitos filhos da roça. Algumas vezes, levam ainda o sonho e o trabalho de uma vida toda de homens e mulheres do campo que não só alimentam um país, mas determinam a vida urbana. Se a alimentação do brasileiro é diversificada de alta qualidade e principalmente tem custo baixo tudo isso é graças aos nossos bravos homens do campo.
Por todos os lados ainda há casos (e muitos) de sucessão. Casos que nos fazem respirar aliviados em saber que continuamos seguros. Carlos Nogueira nos traz uma daquelas histórias boas de serem contadas! Zuquim, como é conhecido na região de Guaíra - SP, é a sétima geração de uma família de pecuaristas. Filho único conviveu com as dificuldades e conquistas do pai produtor e foi assim, de pai para filho que a paixão pela vida no campo foi passando e crescendo. Da cidade natal, Zuquim só saiu para estudar Zootecnia. “Fui a primeira turma de Jaboticabal. Naquela época chamavam de 120, onde desses, 30 faziam Zootecnia. Dos 30, só eu me formei!”
A ideia de fazer a graduação tinha a haver com a geração de pecuaristas da qual foi criado, mas depois de formado e casado em 1976, Zuquim viu uma janela na propriedade do pai chamada Agricultura. “Meu pai não tinha dom para a agricultura. Depois que casei, voltei para Guaíra e ele me doou uma área onde começamos a plantar. Sempre tive uma queda para a agricultura”.
Visionário, Carlos Nogueira viu que investir em tecnologias adequadas traria mais produtividade para suas lavouras. Em 1982 adquiriu o primeiro pivô, dando um passo certeiro. Com esse equipamento irrigou feijão e tomate e vendo necessidade, fez uma derivação na adutora e colocou um auto propelido, conseguindo assim irrigar seis alqueires. “Na época o feijão estava a 4,50... não me lembro se era cruzeiro, cruzado ou cruzeiro novo. Quando colhemos estava a 47,00! Com a venda dessa produção, compramos nosso segundo pivô! De lá para cá a coisa foi fluindo.”
A surpresa não ficou só no preço. “A produtividade foi grande demais”. O espanto foi ainda maior quando viu que o aumento na produtividade estava em torno de espantosos 1000%. A compra daquele feijão todo veio dentro de uma mala: “Naquela época o comprador de feijão trazia o dinheiro vivo dentro de uma malinha. Eu pesava o feijão, entregava pra ele e ele me entregava o dinheiro. Assim, na hora! Às vezes tinha que vir pra dentro do escritório pra contar a venda! Era muito dinheiro!”
Mesmo tendo uma ferramenta que garantia colheita, as tecnologias e culturas da época não permitiam que um único pivô pudesse irrigar mais que 36 alqueires. Irrigando, o agricultor já nos anos 1980 fazia duas culturas e meia/ano. Isso sem contar com as geadas que encararam naqueles anos. Para o produtor que não irrigava, foram ainda piores. Mas Zuquim, confiante se encantava com aquela colheita muito diferente de quando plantava em sequeiro: “aquela produção que se conseguia nessa área era coisa extraordinária!”.

A maior surpresa
As conquistas dos anos como agricultor foram muitas, mesmo com as dificuldades que a vida no campo traz. Pai de três filhos, Zuquim foi sempre apoiador e como acontece corriqueiramente nas fazendas de todo o Brasil, o comum é enviar os herdeiros a estudarem na cidade, garantirem estudos e quando adultos, voltarem para o campo com suas expectativas e conhecimentos. Mas ele foi vendo que a sucessão na família estava prestes a acabar. As gerações de produtores estavam próximas do fim, já que seus filhos buscavam outros caminhos e estavam voando pra longe da fazenda. As dificuldades bateram à sua porta. Sozinho e com os anos ele teve quase certeza que a vida no campo da família Nogueira tinha ponto final em sua geração.
Mas, outra grande surpresa estava por vir. O filho do meio, Matheus Nogueira, formado em Administração e empregado em uma grande multinacional na capital paulista voltou para ao interior a fim de tocar os negócios do pai e começar uma vida nova, longe da cidade grande. “Acho que está no sangue da gente. Em São Paulo vi que aquilo não era pra mim. Voltei, comecei a trabalhar e dar continuidade ao que meu pai vinha fazendo”, acrescentou Matheus.
Para o pai, a volta do filho e sua determinação mostraram que a oitava geração estava pronta para continuar os passos da família. Em pouco tempo, o filho foi dando tiros certeiros em investimentos e consequentemente em produtividade. Na propriedade do estado de Goiás onde criam gado, Matheus ganhou quando fez 15 anos, 20 bois. Foi aumentando ao ponto que a marca do rebanho do pai foi sumindo perto da quantidade do filho.
Empreendedor, vendeu um pouco das cabeças e comprou seu primeiro pivô menos de um ano depois que decidiu ser agricultor. A história se concretizava! E completa: “Quando voltei para Guaíra, uma das coisas que me motivaram a trabalhar foi a irrigação”.

Uma família irrigando
O bom uso da água foi sempre pregado na propriedade do senhor Carlos Nogueira e a certeza da garantia e assistência Valley também. A sua decisão em investir em irrigação lá nos anos 1980, transmitiu ao filho 20 anos depois, a certeza de que aquela tecnologia seria a ferramenta certa para a produtividade na colheita. A garantia do investimento do filho, sempre foi lição dada dentro de casa pelo pai: “Nunca duvidei da potencialidade da irrigação. O pivô foi um avanço de muita tecnologia na vida da agricultura. Não vejo uma ferramenta que seja mais precisa para o agricultou que o pivô, como não vejo uma marca que dê mais assistência ao irrigante que a Valley”.
Matheus aprendeu. Hoje a propriedade da família Nogueira conta com nove pivôs, desses, cinco vieram junto com ele. “Há 12 anos quando voltei, sabia que a produtividade depende da água. Que se não irrigasse, teria problemas com estiagem e ninguém falava em seca. Hoje temos isso como fator certo. Mas não é só isso: não adianta ter um pivô se não tiver um bom projeto, porque a cultura depende de xis milímetros na fase reprodutiva da planta por dia, dependendo do clima. Se um pivô for mal dimensionado, não consegue certa produtividade. Confio no Fumaça e nos projetos que ele faz para mim”, se referindo ao revendedor Valley da cidade de Guaíra, S&A Irrigação.
Com 80% da lavoura irrigada e produzindo soja, feijão, tomate e milho doce na terceira safra, a área de refúgio dos pivôs é feita por seringais. “Você não pode apostar tudo em uma única cesta. Tem que diversificar! Sou um sonhador. Agradeço a Deus por estar aqui trabalhando. Trabalhando direito e honestamente, a gente produz sim!”. Já com o espírito agricultor encarnado, Matheus completa: “A gente é agricultor, né? Está sempre na luta e na esperança!”

Dá pra ver nos olhos marejados d’água de Zuquim ao ver o filho continuando sua trajetória no caminho certo que ele mais ou menos na sua idade decidiu traçar. Mesmo com a desconfiança contraída do pai pecuarista: “Ele nunca me falou não! Mas eu sei que ele dizia por ai: esse menino tá doido! Não sei como ele vai conseguir. Quem investiu em tecnologia como eu naquela época mudou o aspecto da agricultura no Brasil. E o Matheus está dando continuidade! Melhor do que eu!”

*Matéria publicada em Pivot Point Brasil, abril de 2015

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Família Valley

Com mais de 220 colaboradores diretos na fábrica, 30 revendas e 45 lojas em todo o país, a Valmont Brasil através da marca Valley transforma trabalho duro em paixão por irrigação. A vontade e o orgulho do grupo, desenvolve ainda outro sentimento: o de fazerem parte de uma mesma família: A Família Valley!


O sentimento de estar em casa é frequentemente abordado pelos funcionários das empresas, já que ficam boa parte de seus dias dentro delas. Essa realidade não é diferente da fábrica da Valmont Brasil, sediada na cidade de Uberaba – MG. Amizades e negócios são feitos, envolvidos entre pivots que saem da unidade para revendas em todo o país e assim entregues a clientes que utilizam os equipamentos para irrigar lavouras que alimentam muita gente.

O círculo de produção feito pela irrigação através dos pivots Valley, funcionários, revendas, clientes e consumidores traz um enorme sentimento de satisfação a todos. A Valmont desde sua fusão e até antes disso, durante o funcionamento da Asbrasil criou e consolidou entre seu quadro de funcionários grandes parcerias que vingaram em verdadeiras paixões: por irrigar e por trabalhar na empresa que traz em sua história, orgulho e compromisso.

Mas, para que tudo isso tenha significado, é importante contar um pouco das histórias que unem esses sentimentos. E começa em 1946, quando, sob a batuta de Robert Daugherty surge a Valley Manufacturing nos Estados Unidos, mas que somente oito anos depois, a empresa fabrica os primeiros pivots centrais quando em 1954, Frank Zybach licencia a patente à empresa. Concidentemente, nesse mesmo ano a Asbrasil nasce no Brasil produzindo tubos e conexões para irrigação convencional.

As coincidências não param por ai. Em 1975, enquanto a Valmont lança o Corner, a Asbrasil começa a fabricar os primeiros auto propelidos. De longe os americanos observavam a fábrica brasileira e em 1978 firmam parceria, criando a Valmatic. Um ano após, são instalados os primeiros pivots no Brasil, na região de Brotas – SP. Em 1989, a fábrica sai de São Bernardo do Campo – SP e instala-se em Uberaba. E oito anos depois novamente, a Valmont funde com a então Asbrasil dando início a mais um capítulo da história da irrigação.


Tempos difíceis

Muitos dos funcionários que estão até hoje trabalhando na empresa presenciaram todos esses acontecimentos e juntos, fazem parte da história de sucesso e da grande família Valley. São histórias que até então não foram contadas, mas que dão à marca a paixão por usar a camisa Valley.

É o caso de Carlos Reiz um dos funcionários mais antigos, com mais de 30 anos de empresa. De sua cadeira presenciou muitos episódios que construíram a Valmont Brasil: mudanças, incertezas, altos e baixos. “Após uma reunião mostrando baixas, na época como Asbrasil, o chefe do grupo do qual fazia parte disse: temos duas opções: ou vamos pra casa ou lutamos. Fui o primeiro a dizer: prefiro lutar!”, conta emocionado. Na época com esposa e filho pequeno se viu em desespero, mas sabia de alguma forma que se ficasse e continuasse a trabalhar pela empresa, um futuro próspero estava por vir.

Eram tempos difíceis. A economia do país passava por momentos delicados. Tudo levava os mais pessimistas a fechar a empresa. A pressão era grande. “Pensava nos outros funcionários, em suas famílias e o que teriam que enfrentar caso não lutasse. Fiz isso por todos”. Determinado, Reiz ia todos os dias para empresa em busca de novos clientes, que começaram a voltar e efetivar contratos. “Isso me emociona! Devo essas conquistas aos clientes que acreditaram não só em mim, mas na proposta da empresa”.

Paralelo ao problema na fábrica, a Valmont nos EUA tinha em mente abrir uma filial na América do Sul. Vendo que a Asbrasil era uma boa parceira, os americanos esperaram os dois anos que a empresa precisava para se reerguer e efetivou a compra. A decisão em literalmente correr atrás do prejuízo traz para Reiz nostalgia de tempos difíceis, mas que hoje são lembrados de certa forma prazerosos, onde só o gosto pelo que faz, traduzisse tanto desempenho e coragem. “Graças a Deus fomos em frente. Aguentamos a pressão. Hoje a coisa mais prazerosa é poder ver mais de 220 funcionários trabalhando, levando tranquilidade para suas famílias”.

Foi exatamente de sua sala que Carlos Reis firmou muitos contratos, elevando a fábrica e traçando o caminho de conquistas que conhecemos. Aos poucos a marca Valley foi levando arco-íris para lavouras em todo o país. Seus esforços se transformaram em méritos. “Colocar a camisa Valleu todas as manhãs, me faz lembrar momentos difíceis da minha vida, porém muito importantes, porque foram eles que me levaram a chegar onde cheguei”, se orgulha.


Funcionários que se tornaram revendas

Muitas das revendedoras Valley são de responsabilidade de ex-funcionários, que deixaram a fábrica e foram direto para o balcão levar conhecimento e bom atendimento aos clientes. Adalmir dos Santos, o Fumaça, é um desses. Técnico em eletrônica, sua história com irrigação começa quando ele e a família migram do Piauí para São Paulo.

Na cidade grande trabalhava de dia e estudava à noite. De curso em curso foi ganhando conhecimento até ver um anúncio de emprego contratando eletricista para a Asbrasil. Se candidatou à vaga, fez o teste e começou a trabalhar. Começou como montador e logo passou a assistente técnico.

Observador, durante as viagens pela empresa, Fumaça ia trocando informações com outros profissionais. Mudou-se e foi convidado a assumir cargo em Guaíra – SP. “Coordenava meu tempo em trabalhar na fábrica em Uberaba e dar assistência técnica”. Foi cativando clientes e ganhando espaço dentro do setor.

Em 1992, assumiu a revenda em Guaíra. Junto com o sócio e os direitos trabalhistas de 12 anos de trabalho, assumiu uma dívida alta para o padrão da época e investiu no negócio. Em tempo recorde e muito trabalho pagou o financiamento. Em 2000 separou sociedade e fundou a S & A Irrigação com a ajuda da mulher. “Graças ao meu braço direito, Solange, pude ter tranquilidade em cuidar da área que mais me identifico que é o campo, enquanto ela cuida do administrativo”.

A tecnologia Valley sempre lhe chamou a atenção. Mesmo nos tempos difíceis da empresa, Fumaça acreditou e seguiu firme, recebendo a ajuda dos parceiros e amigos que fez dentro da empresa: “Tenho muito que agradecer aos velhos amigos”. Ao todo são 34 anos dedicados à irrigação, 22 como revenda. Nunca pensei em mudar de marca. Sempre acreditei na empresa. “Vi os primeiros pivots serem instalados no Brasil, numa época que muitos não acreditavam em irrigação”.

O piauiense que viu de perto a seca e o desgosto do pai ao perder dinheiro nas plantações em seu estado natal migrou para o Sudeste sem saber seu destino: o de irrigar muitas lavouras. E brinca: “Que ironia! Um nordestino trabalhar com água”. Fascinado, vê de longe seu Piauí sendo hoje um polo de agricultura, inaugurando a pouco tempo uma revenda Valley. “Estou ansioso para conhecer e cumprimentar meu colega durante a convenção de Fortaleza. Quero trocar experiências”, diz entusiasmado.

A trajetória que começou nos campos secos do Piauí e que hoje se consolida nos atendimentos e conhecimentos que Fumaça leva a todos os clientes pode ser resumida como de sucesso ao ver alegria em seus olhos: “Sou de uma família humilde, mas um dia ouvi: você é bem formado, tem conhecimento e dedicação. Você vai longe. Não tenho muita coisa, mas o que tenho devo à Valley. Toda minha história de vida profissional foi dentro da irrigação. Isso proporcionou a mim e à minha família aquilo que nunca tive acesso”.


Dos jardins para os campos de lavoura do Sul

Do outro lado do país, em Porto Alegre – RS em 1995 estava Arno Schollmeier fazendo bicos nos fins de semana, abrindo valas em jardins enterrando mangueiras para irrigar gramados com a ajuda dos filhos pequenos. Durante a semana buscava representações e através de uma delas, importou aspersores escamoteáveis da Alemanha com a venda do único carro: um Apolo 91.

Um dia foi perguntado por que não vendia pivot central. Lembrou-se então da época em que trabalhou por pequeno período numa revenda Valmatic. Soube que um dos sócios-proprietários da então Asbrasil estaria na cidade nos próximos dias. Através da intervenção de um ex-chefe que conhecia os pivots, recebeu o convite de ir a Uberaba para uma conversa. Era início do ano de 1997 e começava a sua trajetória em meio aos pivots centrais. “A empresa começou tão pequena que durante o dia não tinha ninguém para atender o telefone e o fax era a única forma de comunicação com meus fornecedores e clientes”, lembra.

O começo não foi fácil. Nascia em Panambí – RS, ainda prematura a Pivot Sul enfrentando o maior concorrente da época. Apesar de conhecer os clientes e o equipamento, o primeiro ano foi muito complicado e nada foi vendido. “O cliente daquela época, não acreditava e preferia comprar de outros estados. Só após três anos as barreiras do bairrismo foram vencidas e vendemos cinco equipamentos”.

Mas os resultados ainda não eram bons. Vendendo pouco, Arno mudou a estratégia: ao invés de buscar orçamentos, se dedicou aos clientes que tinha conquistado. As vendas aumentaram consideravelmente e sentiu a confiança que precisava para seguir adiante. Convidou a esposa Mariane, que morava em Porto Alegre e trabalhava como fisioterapeuta, a ajuda-lo nos negócios. “Minha primeira providência foi passar o serviço do escritório e o caixa para as mãos dela. E foi ai que a empresa passou a existir de verdade! O que era um sonho passou a ser realidade”.

A rotina mudou. Nos fins de semana sentavam planejando o futuro da empresa, tomando chimarrão. O casal participava sempre das reuniões e das convenções da fábrica. Enquanto Arno tratava de um assunto, Mariane se destacava tirava dúvidas com técnicos de outras revendas, discutindo e levando suas opiniões para a diretoria.  “Aproveitei a passagem de um cavalo, que não estava encilhado e subi nele. Só que fiquei  olhando para  trás, olhando para o passado.  Com a ajuda da minha esposa é que eu me virei sobre o cavalo e passei a olhar para frente, vislumbrando um futuro”.

O crescimento não foi tão rápido quanto pensavam. A concorrência era agressiva e desleal. Existia medo em investir em pessoal, não podendo pagar o custo. Mas novamente a luz surgiu depois que fizeram um curso na Fundação Dom Cabral oferecido pela Valmont. A empresa viu que se destacava pela solidez financeira e possibilidade de investimento no negócio. Participaram do PDRV, treinaram funcionários. Pensávamos que com mais pessoas iríamos trabalhar menos.  E o que aconteceu foi que a empresa cresceu e de um momento para outro triplicou, junto com as vendas e o trabalho também”.

Foi com trabalho e, sobretudo, com garra que Arno e Mariane elevaram a Pivotsul para uma das melhores revendas Valley, adquiriram muitas vezes pontuação prata no PDRV. São 15 anos de trabalho, e muita dedicação que colocaram a revenda em destaque. Trabalhar com irrigação é sinônimo de trabalho sete dias da semana e pelo menos 15 horas por dia. Minha esposa, parceira de todas as horas, diz que não tem roupas no armário que não sejam uniforme. Não há tempo para trocar de roupa. Assim se precisamos ir ao supermercado ou na padaria, vamos com a camisa Valley que para nós significa compromisso com os nossos clientes. É nossa paixão!”.

Quando pela primeira vez viu um pivot central em 1985 através de um folder e ficou impressionado com o tamanho do equipamento, Arno não imaginava que 12 anos depois sua vida estaria ligada a ele. “Durante a conversa em Uberaba, viram a sua frente alguém que não tinha nada, a não ser alguém com muita garra e força de vontade”. A paixão por irrigar, talvez surgisse naquele momento e anos mais tarde estaria estampada na marca que carrega todos os dias.


Os casos de sucessão e sucesso

Ainda que os números sejam positivos, existe uma grande preocupação em manter uma empresa familiar. Pesquisas apontam que as empresas familiares representam a maioria das companhias brasileiras e, de acordo com o Sebrae, equivalem a 90% do total, por isso desempenham importante papel no desenvolvimento do país e na formação do Produto Interno Bruto – PIB.

Graças ao trabalho de muitos pais brasileiros, esses números são expressivos, mas casos nos mostram que na prática a representação deles nem sempre pode ser considerada. A sucessão familiar nas empresas é preocupação de muitas famílias quando percebem que os filhos não querem continuar o trabalho dos pais por acreditarem em outras profissões ou ainda por não terem interesse pela sucessão. Muitas vezes é um trabalho complicado, pois envolve situações de conflito e discordâncias que magoam tanto pais quanto filhos.

Este não é o caso das revendas Valley Pivodrip em Patos de Minas – MG e Luiz Eduardo Magalhães – BA; Pivosul em Panambi e São Luiz Gonzaga – RS; Germek em São José do Rio Pardo – SP; Pivot em Goiânia, Cristalina, Formosa – GO, Paracatu e Unaí – MG; e da Pivotec em Santa Juliana, São Gotardo – MG e Rio Verde - GO. Nessas revendas toda a família veste a camisa Valley, mostrando que todos têm não só paixão em irrigar, mas também em continuar no rumo certo. São casos de sucesso que deixam os pais dessas revendas orgulhosos e tranquilos quanto à continuidade de tanto trabalho e suor.

O exemplo dessas revendas é importante, pois, conforme estatísticas, de cada 100 empresas familiares fundadas no Brasil e no mundo, apenas 30 sobrevivem à segunda geração, 15 empresas à terceira e quatro sobrevivem à quarta geração, ilustrando aquela velha história: “pai rico, filho nobre e neto pobre”.

A Valmont tem cada vez mais levado em consideração a importância das sucessões dentro das revendas Valley. Chamar a atenção para isso é dar a cada revendedor a questão em ter o trabalho de anos, mantido a passos fortes e determinados que os filhos têm, dinamismo da juventude e da garra em trabalhar em nome da irrigação. São na verdade, trocas de experiências que auxiliam no profissionalismo das duas gerações, além de poder trabalhar em uma convivência madura e respeitada.

As chances de uma sucessão acontecer naturalmente são poucas e o processo deve iniciar o mais cedo possível, considerando regras e consequentemente profissionalização. Pais e filhos juntos podem desenvolver ações de grande valia para a empresa. A figura do sucessor é muito mais que a liderança, é a manutenção da fonte de renda para sustentar a família, além da continuidade do sonho do empreendedor que a fundou. 

Levar a cada manhã o filho para o trabalho é o sonho de cada pai, depois de anos a fio buscando clientes, levando assistência técnica e desenvolvendo elos que levaram cada uma das revendas Valley a sair de um projeto e chegarem onde estão. Esse sonho não é apenas dos pais, mas também da Valmont que se orgulha e parabeniza a todos que fazem parte da Família Valley.


A convenção 2014

O tema da convenção 2014 é Família Valley e foi propositalmente pensado para homenagear homens e mulheres que dedicam-se diariamente não apenas pela marca Valley, mas sobretudo, pela irrigação no Brasil. São dias e dias levando conhecimento e tecnologia através dos pivots centrais da Valmont e onde famílias inteiras no Brasil são alimentadas durante todo o ano. Carlos Reiz resume: “De todos os problemas que já tive o maior foi o sacrifício em ficar longe da minha família. Fui infelizmente um pai ausente. Viajava muito. Por isso que quando o tema da convenção foi pensado, disse que seria importante homenagear a família”.

Contentes e apaixonados pelo que fazem, é bonito ver tantos olhos apaixonados, tantos sorrisos e algumas vezes, vozes embargadas quando o assunto é irrigação. O orgulho e a paixão dos funcionários, revendedores e colaboradores que participam do processo de levar pivots Valley às lavouras brasileiras, não nos dá apenas noção do comprometimento desses que todos os dias saem de suas casas para auxiliar na cadeia produtiva da agricultura, mas também, o de serem todos dignos de aplausos e agradecimentos: das famílias brasileiras para a Família Valley.


Matéria de capa publicada em Pivot Poin Brasil - dezembro de 2014

Theodorus Swart – o holandês que se tornou brasileiro

Muitas histórias nos são contadas todos os dias. Todavia, muitas são cheias de dificuldades, conquistas e sucesso. A história de vida de Theodorus Swart não é diferente. E não é diferente também a importância de narrá-la e servir de inspiração e exemplo.
Ainda criança, Theodorus saiu de seu país de origem aos dez anos. Acompanhando seus pais e irmãos, a família sai da Holanda em busca de novas oportunidades. As condições holandesas naquela época não eram boas. O país sofria com a devastação causada pela Segunda Guerra e o próprio governo incentivava a imigração. Austrália, África do Sul, Canadá, França e o Brasil eram o destino de muitos holandeses. Aqui a família Swart desembarcou, por dois motivos: o país estava investindo em agricultura e era um país católico. Aliás, grandes grupos de holandeses vieram para terras tupiniquins exatamente pela abrangência do catolicismo, que, através da Associação Neerlandesa dos Lavradores e Horticultores Católicos formavam colônias que coordenavam as imigrações, seguindo acordo com o governo brasileiro.

Em uma dessas colônias veio parar o pequeno Theodorus. Holambra, a cidade das flores, era ainda uma pequena colônia de holandeses aberta para novas conquistas. O nome surge das iniciais de Holanda, América e Brasil. Ali a agricultura e a pecuária leiteira, atividades desenvolvidas pela família Swart, foram mostrando a força de um povo forte por natureza e cheio de vontade de trabalhar.

Aos 18 anos, Theodorus junto com um dos irmãos, muda-se para Holambra II, onde continua até hoje. Começam juntos a plantar e se profissionalizar dentro da agricultura, a construir suas famílias e abrir dentro da região de Paranapanema, um verdadeiro canteiro de culturas de onde sairia muito feijão para muitos pratos brasileiros.

A vida não era fácil. Embaixo de sol, chuva, dia ou noite Theo Swart plantava soja, arroz, milho e algodão. Ao se lembrar daqueles tempos, comenta como era difícil trabalhar por até 36 horas sem dormir para arar a terra a ser semeada antes da chuva. Tudo era bem complicado e a luz no fim do túnel foi vista em 1985, quando o agricultor ficou conheceu um pivô. “Fomos até Guaíra conhecer o equipamento. Nessa época já trabalhava com o sistema de canhões, complicado porque tínhamos que levar de um lado para o outro. Quando vimos a estrutura daquele tamanho andando, podendo trabalhar inclusive à noite quando é melhor o aproveitamento da água pelo solo, falei: vamos acabar com aquilo que temos e vamos passar a colocar pivô central!”.


O primeiro pivô

Menos de um ano depois da apresentação ao sistema de irrigação, Theodorus e mais cinco produtores fizeram o grande investimento de suas vidas: uniram-se em busca de negociação e num pacote só adquiriram seis pivôs. Tratava-se de um Carbundum, marca francesa já sem produção. Mesmo sabendo que teria mais produção, as expectativas surpreenderam: “Para nós aquilo foi uma evolução! Uma mudança radical que aconteceu em nossa região! Basta ver quantos pivôs temos por aqui hoje: mais de 2 mil”. A satisfação da colheita levou à compra do segundo pivô: um Asbrasil – fábrica que em 1997 se fundi à Valmont. A escolha foi baseada no antigo sistema de irrigação através dos canhões que eram assinados pela empresa. A foto desse equipamento está na parede do escritório.

A aquisição dos pivôs mudou a vida de Theodorus Swart. A partir do investimento começou a plantar de forma programada. Foi vendo rapidamente que o que plantava em cinco anos, estava fazendo em um. Rapidamente viu que tinha feito um bom negócio, seus lucros foram aparecendo, cada vez mais foi podendo ter controle sobre suas lavouras e chegar aonde chegou: “A irrigação trouxe para nós outra realidade. Mudou o serviço, mudou o trabalho. Hoje podemos manter culturas e funcionários o ano todo”.


A sucessão familiar

A realidade de Theodorus infelizmente não é a mesma de tantos outros produtores brasileiros. A falta de incentivos e tecnologias nem sempre convence os filhos a continuarem os passos dos pais, que têm que se render à contratações e administrações terceirizadas. Trinta anos após o primeiro sistema de irrigação e 51 pivôs, a família de agricultores Swart tem caras novas. Trabalhando com os filhos Ricardo, Eduardo e Cristiano, o agricultor, tem a alegria e a confiança de ter em sua mesa, toda a família planejando as questões do plantio certo na hora certa. O que antes fazia sozinho, hoje tem lado a lado três engenheiros agrônomos além do genro zootecnista e especialista em genética para discutirem as questões das fazendas.

Essa sucessão foi seguindo o caminho mais simples: o do exemplo. A convivência é para o Sr. Swart a grande diferença. Foi levando os filhos ainda pequenos para a lavoura que fez nascer o heroico espírito de ser agricultor em cada um dos meninos. “Tem que gostar. Tem que levar junto e mostrar a convivência. Nunca falei para nenhum deles ser agrônomo. Seguiram esse caminho porque gostaram do que foram vendo. É querer viver do e no campo”.

Emocionado, Theo mostra-se feliz ao ver os filhos juntos e se considera um homem realizado. O que começou em 1986 com a aquisição do primeiro pivô, juntamente com o trabalho diário mostra no rosto do holandês que se diz brasileiro, um homem firme, mas cheio de orgulho e satisfação. “Quando tinha dez anos já estava em cima de um trator. Aos 15 dirigia caminhão. Acho que começamos a nos espelhar nele, pegar gosto e assim aprender a dar valor nas coisas. É lá debaixo que temos que aprender para que um dia possamos ensinar. E isso estou tentando fazer igualzinho com meu filho”, conta Ricardo Swart, filho mais velho.

Para o irmão Eduardo Swart, o maior exemplo é a perseverança: “Desde moleque vi com meu pai que era preciso trabalhar bastante para se conquistar as coisas. Ao acompanha-lo nascia o interesse em fazer o que fazia”.

Hoje com uma produção em quatro propriedades, Theodorus Swart produz feijão, soja, milho para sementes, trigo, cevada, aveia para cobertura e algodão. Mesmo com as dificuldades em ser produtor no Brasil, com a falta de escoamento para o transporte da produção, portos sem infraestrutura, burocracias nos financiamentos e ferrovias que nunca saem do papel, Theodorus vê que sua condição é hoje diferente graças à irrigação. Ao voltar os olhos para as manchas de sol presentes em seus braços, lembra-se da dificuldade em esperar a chuva para colher: “O que começamos com o primeiro pivô, junto com o trabalho nos trouxe onde estamos hoje. Se não tivesse escolhido por irrigar, não sei se estaríamos aqui”. E Ricardo completa: “Irrigar é um seguro seu, junto com o plantio direto. Você não pode errar. O custo é muito alto para se ter uma lavoura seja do que for. Se você errar e não colher nada, imagina o que é preciso para se recuperar? Talvez isso nunca aconteça”.

Aos dez anos de idade Theodorus Swart, sai da Holanda e atravessa um Atlântico inteiro junto com seus pais e irmãos atrás de um sonho: uma nova vida em uma nova terra. O Brasil era o destino. O que o pequeno holandês não sabia era que aquela seria sua primeira grande aventura. Dali em diante sua vida seria marcada por grandes desafios, dificuldades, e, enormes conquistas. Seu destino não era apenas chegar ao novo país desconhecido, mas sim, ser um grande agricultor. Chegava ao Brasil um menino que apostaria e confiaria na irrigação para ir longe. E mais: sendo exemplo e seguido pelos filhos.

Matéria publicada em Pivot Point Brasil - dezembro de 2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Américas - O novo mundo?

Durante a colonização das Américas, entre os séculos XVI e XIX, as atividades econômicas foram primordiais para a entrada do colonizador e assim, a construção de um novo mundo. Os textos de Enrique Florescano, “A formação e a estrutura econômica da hacienda na Nova Espanha” e “A economia e a sociedade rural da América do Sul espanhola no período colonial”, narram de forma bastante nítida a formação econômica dessas regiões que, basicamente sofreram as mesmas formas de invasão que transformou tanto as Américas e a Espanha, como toda a Europa. 

O colonizador logo no princípio percebeu a necessidade de construir uma verdadeira colônia onde fosse possível gerar uma sustentação econômica para sustentar aquela que foi sua principal nova geração de economia: a mineração. Assim, as haciendas surgiram onde toda uma produção agrícola produzia meios de subsistência para os trabalhadores nas minas de ouro e prata. Alimentação, moradia e vestuário nasciam e eram produzidos nas haciendas. Mineradores tinham suas necessidade totalmente supridas através do trabalho nas haciendas e daqueles que trabalhavam nelas. Nessa leva, índios e nativos faziam parte do quadro de “funcionários”. 

Além da chegada dos espanhóis, outra mudança ocorria: o ambiente físico das Américas sofria transformações. As produções agrícolas e os pastos tomavam conta dos planaltos de onde é hoje o México, antes Nova Espanha. Nesse novo ambiente, a cana-de-açúcar, o milho, o trigo, porcos, cabras, ovelhas e galinhas, ilustravam a paisagem de onde antes estavam aldeias inteiras e com as haciendas, índios saiam de suas tribos com o intuito de trabalhar levado por contos de distribuição de terra. 

Mas, os espanhóis não se interessavam a princípio pela agricultura. A essa altura a produção de alimentos era basicamente a de satisfazer a demanda das haciendas e consequentemente das minas. Para que dessem certo as ideias colonizadoras de produção eficazes para alimentar as haciendas, a distribuição de terras regulares foi feita pelos ouvidores, onde um lote de terra devia servir para a construção de uma casa e a plantação de uma horta. O pagamento era o trabalho. As novas vilas surgiam. 

Contudo, essa visão lucrativa do colonizador de não perceber a importância da produção que estava acontecendo na Nova Espanha mudou. A concessão de terras surge. Hectares de terras indígenas foram divididos: uma parte era destinada ao núcleo da aldeia e outra reservada para a terra comunal onde seriam realizadas atividades agrícolas de agricultura e pecuária. A Coroa utiliza agora a terra para a criação de gado e mais: encorajava aqueles que a fizessem. Assim, a produção econômica da Nova Espanha muda, ou melhor, adquire mais uma forma de extração, dando assim estabilidade tanto para a Coroa como para as haciendas

Não demorou muito para que as cidades maiores começassem a gerar mão-de-obra indígena e onde nativos fizessem negociatas de compra e venda. De um lado o índio fornecia o trabalho de toda a aldeia gerando um sistema ainda maior de exploração. De outro, escravos africanos surgem como importante força de trabalho permanente, para acelerar o desenvolvimento da agricultura, da pecuária e da mineração. O índio, portanto, produzia ainda mais sob o sistema da encomienda, adotando métodos de produção para acelerar sua subsistência e adquirir o excedente exigido. 

Esse novo sistema econômico e social gerava gêneros alimentícios para os mercados urbanos, mas, não garantiu trabalhadores permanentes. A maioria, assim que recebia uma determinada quantia, voltava para suas aldeias e vilas e voltando para a cidade quando a dificuldade batia novamente à porta. Surgia então a ausência de um mercado de trabalho, que gerava ainda, a dependências de fontes externas, taxas religiosas e maior dominação. Para solucionar o problema, a maneira de aliviar a situação do colonizador foi adiantar dinheiro, roupas e etc. Emprestando renda, os endividados eram mantidos permanentemente ligado à hacienda. A vantagem só aumentava para as haciendas, para os encomiendeiros, para a Coroa e agora também, para a Igreja. 

A comercialização de todos esses produtos dava à cidade-capital uma grande concentração de pessoas, onde os lucros monetários e as transações das minas e dos rendimentos agrícolas eram negociados em dinheiro. A demanda era tamanha que a essa altura existiam dois pólos: os centros administrativos e políticos, e os complexos de mineração. 

Na América do Sul a realidade não foi muito diferente. A diferença maior foi que, enquanto na Nova Espanha (México e América Central) primeiro se basearam na mineração para depois atingir a produção agrícola e pecuária, na Nova Granada (América do Sul) ocorreu o inverso. Muito talvez pela dificuldade de extração de ouro e prata e pelos altos e baixos da topografia no Sul da América. Além dessas, o fator clima também dava aos colonizadores, dificuldades de acessar as propriedades da terra - como no alto dos Andes e as grandes altitudes. Assim, as pastagens e a cultura de milho e trigo deram novos rumos à economia da América do Sul, principalmente nas regiões do Peru, da Bolívia e do Equador. Outra grande diferença foi a presença marcante de ordens religiosas como os jesuítas que construíram a fé de proprietários, nativos e indígenas, e assim, formas de obtenção de rendas para a aquisição de terras e de manutenção das necessidades jesuítas. 

O número crescente de espanhóis foi dando novas faces para toda a América, tanto na Nova Espanha, quanto na Nova Granada. Além da mudança étnica, a paisagem foi sendo incorporada ao potencial econômico que a América espanhola gerava. Campos foram se tornando cenários de pastagens e de agriculturas. Montanhas se tornaram minas. Índios se tornaram trabalhadores assalariados e todos iam à Igreja levar seu dízimo para um lugar no Céu. A conquista das Américas trouxe aceleração de todas as formas, mas a cultura de gerar economia foi mesmo a grande modificadora do cenário. O lucro atropelou todas as culturas existentes e deixou sua marca em tudo, principalmente na disseminação de aldeias inteiras e de suas identidades. A América, para cima do México era uma nova-velha Inglaterra, e abaixo, um nova-velha Espanha.